O que eu aprendi e descobri desmontando o mundo

 

O que falta para descobrirmos o que está por traz de um problema? Como passar a ter uma visão aberta e clara?

Por Franklin Alexandre

D esde que eu perdi a minha avó por parte de pai, sinto que perdi também parte da minha história de vida. Com ela se foi um HD de muitos e muitos terabytes lotado de receitas, histórias, piadas, sentimentos, memórias, parábolas, amor e carinho. Embora, por um lado eu tenha aproveitado cada momento ao lado dela, e guardado a maior parte das recordações com carinho em meu modesto disco de memória, por outro lado, fico pensativo em saber que ainda havia tanto que ouvir, processar, perguntar e descobrir.

Poxa vida! Esqueci de perguntar a história daquela linda caravela grande de madeira que desde sempre decorava a estante da sala, já perguntei inúmeras vezes para a família, mas ninguém sabe dizer de onde veio aquele enfeite. Pesquisando no meu HD, lembro de uma vez em que eu estava passando um final de semana na casa dela, já era a tarde e estava passando o filme “Rambo II” na sessão da tarde e todo aquele clima de “vivendo do ócio” já estava me deixando entediado. Minha avó, muito atenciosa que era, reparou meu tédio e me chamou com aquela voz rouca, alta e inconfundível e disse: Filho, pegue aquele barco que você tanto gosta, vou te mostrar uma coisa.

Rapidamente levantei do sofá, arrastei e subi numa cadeira para alcançar o barcão. Era de fato uma caravela bem grande feita de madeira e desmontável como lego. As velas eram estilo latinas e o tempo já tinha feito o trabalho de deixá-las amareladas. (Também havia um desenho de uma cruz vermelha no centro). Um bloco de madeira quadrado servia para apoiar o enfeite e no rodapé que estava talhado os dizeres: “josefina fina e linda” (Incrível como consigo lembrar desses detalhes, indo mais longe, lembro que inclusive que o tapete da sala era vermelho e meu pai tinha saído para jogar no bicho).

Foi quando ela me disse: filho, desencaixe aquele mastro e me dê. Rapidamente desmontei um dos dois mastros e a entreguei. Segurando o mastro e balançando na minha frente em movimentos hipnotizantes, bem rapidamente ela disse com a mesma voz rouca: Isso é a caravela? De imediato respondi com os olhos bem abertos e uma cara de questionamento: não! –  e continuei: é apenas um pedaço de madeira, mas como assim vó? Ela continuou e disse: Espere que você vai ver.…agora desmonte e me dê aquela vela maior da direita. Obedecendo, entreguei a vela.

E então ela perguntou novamente: Isso é a caravela? Respondi já dando risada: não vó, é apenas uma vela. Continuando ela mandou que entregasse as cordas que seguravam as velas e perguntou: Isso é a caravela? Respondi: não vó, são apenas cordas. Agora me dê aqueles lemes. Entreguei e ela lançou mais uma vez: esses lemes são a caravela? Respondi dessa vez gargalhando: não vó, são apenas lemes. Me entregue agora as janelinhas. Desencaixei e entreguei 8 janelinhas redondas já emendando: tome vó, são apenas janelas e não são a caravela. Passamos um bom tempo fazendo isso com todas as peças da caravela. Fiquei tão preso naquela bolha onde só existia eu, minha vó, aquele objeto desmontado e a dinâmica das perguntas, que pouco reparei o final do filme, o entardecer, e meu pai voltar. A brincadeira acabou e quando montamos tudo, nos demos conta de que sobraram peças, parafusinhos, pedacinhos de madeira e cordas que não sabíamos onde diabos colocar de volta– rimos muito. Guardamos tudo e fomos dormir.

Isso ficou gravado como se fosse uma memória-base. Até hoje eu conscientemente desmonto na minha imaginação objetos e até mesmo lugares, só para me dar conta que tudo são aparências e coemergem de acordo com a percepção que tenho delas. Saber que uma caravela só se torna uma caravela quando todas peças estão juntas  me trouxe um olhar diferente para a vida. (Quem sabe foi isso que minha avó quis dizer com a brincadeira).

Mais recentemente eu fui além eu comecei a desmontar situações, problemas e dúvidas e acabou sendo muito interessante. Inclusive na última vez em que eu me vi discutindo com minha esposa, separei mentalmente o motivo de estarmos brigando, o sentimento emocional que me motivava a me irritar com aquela situação e por último, a imagem de nós dois brigando, como se eu estivesse assistindo a um filme (trash) daquela cena. Isso por incrível que pareça me fez enxergar a situação com mais lucidez e perceber o quão estupida e inútil era aquela discussão.  Imediatamente respirei, soltei, sorri e dei um abraço nela. Com isso eu aprendi que as vezes precisamos desmontar para finalmente conseguir enxergar o que está escondido (o aspecto secreto das coisas). Ou seja, o “estupido” e o “inútil” estavam escondidos – camuflados no meio daquela discussão.

Sou muito grato a minha avó por ter proporcionado essa memória, essa visão, que por fim acabou sendo muito construtiva, mesmo depois de adulto, casado e com um filho. Espero realmente poder guardar essa memória por muito tempo em meu HD imaginário. Já que nada é permanente e esse HD pode ficar velho e queimar, ou quem sabe do nada, vai que aparece a tela azul da morte! Tratei de fazer um back-up – A melhor forma que encontrei de fazer isso? – Desmontei um carrinho de controle remoto com o meu filho e comecei perguntando se o volante era o carrinho.

 



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